Sinto-me desiludido comigo mesmo, não como pessoa, porque acho-me uma pessoa bastante diferente de todas as que conheço, mas sim porque, desde que me lembro que sou gente que me desiludo mais vezes com as coisas que faço do que me orgulho e gostava de um dia me poder orgulhar verdadeiramente por ter feito algo verdadeiramente para alguém, hoje magoei alguém e mais uma vez me desiludi porque eu odeio magoar o que quer que seja...

Gostava um dia de ser o que não sou hoje, gostava um dia que olhassem para mim e dissessem, és um orgulho, gostava um dia que ouvissem falar de mim e dissessem "Esse puto?Esse puto é um fixe", gostava de um dia ser importante na vida das pessoas, não te todas elas, mas sim nas que me rodeavam, a medida que vou crescendo a vida tem-se revelado muito mais injusta, ano após ano e cada vez mais difícil, ainda me lembro de quando era miúdo e ficava chateado por a minha madrinha não me deixar ir a piscina com os meus amigos e só pensava "Bolas, quero crescer, quero ter o meu dinheiro", lembro-me tão bem, pois hoje, é completamente o inverso, ontem quando estava a chegar a casa do ginásio, vi o meu irmão de 7 anos com os amigos a combinarem ir jogar as "escondidas da bola" para quem não sabe, esse jogo é bastante simples, é como as escondidas normal, mas com uma bola em que para salvar todos os que já foram apanhados não existe o "1,2,3 Pipo salva todos" ou o "1,2,3 Pipo não salva ninguém" mas sim uma bola que tem de ser rematada e confesso que senti uma enorme vontade de ir a casa deixar a mala e voltar para baixo e brincar ali, rodeado de crianças entre os 6 e os 11 anos de idade, mas não, fui para casa...
E em casa comecei a fazer uma retrospectiva da minha infância e comecei a pensar "Há quantos anos é que eu não jogo as escondidas?", não consegui dar um ano exacto, mas penso que a ultima vez que o fiz tinha 14/15 anos, tenho 21 actualmente e até com esse pequeno facto, me desiludi... Tive tanto tempo para brincar, tanto tempo para ser criança, mas não, quis crescer a força, quis sair e ser social, quis entrar no mundo dos mais velhos, quis tanto que consegui, lembro-me de uma frase "O que custa não é seguir em frente, é olhar para trás" e eu quando olho para trás, sinto uma dor e desilusão imensa, podia ter feito tanta coisa, podia ter brincado horas e horas sem fim, como o meu irmãozinho faz, mas não, preferi ser o que sou hoje... Não tenho vergonha do que sou nem nada parecido, mas as vezes, quando olho para trás, o arrependimento vem a tona e para mim, a dor do arrependimento é uma das mais difíceis de suportar, quando me arrependo é porque tive a hipótese de escolher o outro lado, o outro caminho, a outra decisão e ao longo destes anos tenho-me desiludido porque grande partes dessas escolhas foram erradas, nos grandes momentos, decidi mal, escolhi mal e isso desilude-me, não porque sou uma pessoa que gosta de ter sempre razão, mas sim porque sou uma pessoa que odeia magoar alguém e quando tenho de escolher em que hajam outras pessoas envolvidas, tento sempre escolher o melhor para elas e não para mim, mas ao longo destes anos essas escolhas têm me esfaqueado as costas, têm me dado aquele arrepio que me sobe as costas e congela o pescoço, têm entrado na minha cabeça e deixado lá um peso tão grande que não sou capaz de a levantar e olhar para a frente, voltei a decidir mal, mais uma vez, pensando que estava a decidir bem! Isto tudo leva-me a pensar, o que percebo eu da vida? Tantas falhas, tantas desilusões, o que percebo eu da vida? Acho que nada, porque eu sempre lutei para ter uma vida feliz com alguns momentos de tristeza e neste momento a minha vida é o contrário, uma vida triste com alguns momentos de felicidade...
Gostava de um dia poder fazer tudo o que não fiz, de conseguir fazer alguém sorrir de orelha a orelha, sem palavras caras porque um sorriso é rasgado com palavras sinceras e não eruditas, gostava um dia de viver em monogamia, com alguém que gostasse mesmo de mim, gostava de um dia ser alguém de quem eu próprio me pudesse orgulhar, eu e quem estivesse comigo, se pudesse orgulhar de me ter a seu lado, gostava um dia de ser a luz do escurecido, o porto de abrigo do necessitado e ser a atenção do desprezado, o auto flagelo que retrato neste texto não é uma queixa, não é um apelo de pena a quem quer que seja, é apenas um desabafo, daqueles que tive poucas vezes...