quarta-feira

Não foste só tu que partiste, eu parti contigo

Espero que estejam bem, espero que estejam descansados e que tenham ido em paz, vou levar-vos comigo no meu coração para sempre, um de forma mais afincada e interiorizada como aquelas noites que tínhamos em Santos ou no Arqui, outro mais abstractamente, mas com uma afinidade muito grande. São grandes, foram grandes e vão sê-lo sempre, não mereciam o que a vida vos proporcionou, o destino que foi escrito para vós, mereciam mais, bem mais, uma plateia de pé a inundar-vos de aplausos, mas em vez disso o que tiveram foi viagens e viagens a um hospital coberto de apupos. Vocês lutaram e tu meu irmão, foste enorme, mesmo quando ninguém já tinha esperança, tu rias, nunca te entregaste, nunca te curvaste, nunca desististe de nós, nem de ti, lutaste com tudo, mesmo sabendo  que seria uma batalha contra 1000 problemas, foste um exército de uma pessoa só e enfrentaste tudo, tenho muito orgulho em ti! E é em lágrimas que te escrevo isto, se que provavelmente quererias outro desfecho, eu quereria, gostava que voltasses a ser meu colega de equipa, naquelas paródias quando íamos jogar longe e vínhamos a entoar para casa "campeões, nós somos campeões", no tejadilho de um dos carros dos treinadores, lembro-me tão bem e a minha mãe ainda tem fotografias dessa era! Nada previa isto, eras tão saudável e foste embora assim, saudável de espírito, cultivando bem estar e boa disposição por toda a parte. Ontem, perdi uma das flores mais bonitas e coloridas do meu jardim, sempre cultivámos a nossa amizade, conheço-te desde os meus quê? 8 anos? Provavelmente e desde aí, passaram-se 17 anos e nada mudou, até dia 17...
Data um dos dias mais tristes da minha vida e foi uma tarde melancólica daquelas que já não me recordava, quando te vi ali deitado, estático, parado, morto... o meu coração disparou, senti um desespero interior inexplicável, uma sensação de impotência gritante, só me apetecia chorar, abraçar-te e chorar simplesmente, mas contive-me, em frente ao teu pai que me abraçou quando me viu, com uma força como se te tivesse a abraçar a ti, senti-o vivo naquele momento, mas acabado por dentro, espero que o guies daí de cima para não descampar nas garrafas que têm perdidas lá para casa..
Eu cá vou andando com os meus botões, por respeito tirei as nossas fotos daqui de casa e guardei-as numa caixa de uns Nike qualquer, juntamente com aquela camisola da equipa que tínhamos iguais, vai trazer-me sempre boas recordações tuas, nossas, mas acima de tudo vai fazer com que sinta que ainda estás aqui, que ainda apareces no ts e dizes aquele "tão" mesmo desleixado! Tenho esperança que de onde estejas, possas ler o que escrevo para ti aqui, apesar de nunca te ter contado este meu segredo, hoje gostava que lesses isso e logo quando me fosse deitar, sentir o teu abraço só mais uma vez, até breve! :')

terça-feira

Nem todos são iguais


Quando muita gente diz a maior parte tem idade para trabalhar, têm aqui um exemplo de que a vida lá fora é uma luta e é fácil falar quando ao final do dia temos o que comer e onde dormir.

Abraços que resolvem tudo

Nestes últimos tempos tens sido a minha missão sorriso, sempre com disposição para me ouvir, mesmo quando o dia não te corre de feição estás lá, puxas me para ti e afastas-me deste buraco em que o destino me decidiu meter. És a base de tudo, da força de vontade, da motivação, da coragem, não tenho como classificar o que tens feito e não quero continuar a cansar as palavras já proferidas para te contemplar.
És linda, não estou a falar fisicamente, apesar de também apresentares os teus traços bem delineados, mas é o teu interior que me cativa e me faz acreditar que vou conseguir ultrapassar isto, a maneira como desmantelas a minha carapaça, como penetras a minha defesa, como esmiúças aquilo que me apoquenta é inacreditável, a promiscuidade em que tenho vivido está a desvanecer graças ao teu sentido de me orientar, de me guiar tal e qual uma vara que guia um cego. Tens sido o meu espelho que nunca me mente e a minha sombra que nunca desaparece e espero que assim continues. Como aconteceu? Não faço ideia. O que sinto? Um carinho aquecido entre a preocupação e a confiança.
A nossa amizade é estranha, parece que não tem fases baixas, está a ser vivida numa intensidade como nunca vivi nenhuma amizade e se há coisa que me fascina é a maneira como me fazes ter vontade de falar contigo, horas e horas a fio, eu que odeio mexer no telemóvel, conseguiste impor-me uma necessidade, não sei se é bem essa palavra, mas conseguiste fazer com que eu queira ter iniciativa, queira falar, algo que não acontecia a muito tempo.
Com o tempo que tem passado tens te vindo a tornar numa muralha a minha volta e não queres que nada a atravesse, magoa-te que me magoem, chateia-te que me chateiem e entristeces-te com a minha tristeza, é lindo isso, não fazes ideia do orgulho que tenho em ti, especialmente por te ver triunfar na vida como tens feito até aqui e lutares por ti e por nós todos que te rodeamos ao mesmo tempo, no meio de tanto azar, apareceste-me tu, o meu trevo de quatro folhas, o meu toldo para os dias mais chuvosos, o cachecol que abraça o meu pescoço no frio imenso que tenho sentido a voz angelical que me livra dos conselhos do diabo, tens sido tudo isto e nem reparas nisso, no que provocas em mim, na pessoa que me tornas, na maneira como cresço com o que me dizes, é inexplicável. 
Aguardo que nunca te vás embora e falo a sério, não consigo viver sem ti, fazes parte do meu ecossistema, passaste de um átomo na minha vida a uma molécula e não há excessos, é a verdade, tornas-me uma pessoa mais forte, mais determinada mas não só, tornas-me mole por dentro, não consigo ser duro ou seco contigo, parte-me a cabeça ter que te responder mal e ignorar-te, está fora de questão, não sei o que me estás a fazer, mas é bom, muito bom e só espero que continue até eu poder voltar a caminhar sozinho novamente.
Por enquanto, a minha viagem melhorou bastante, as paisagens são mais coloridas, as condições climatéricas aqueceram e os passeios não são tão melancólicos, contigo, tudo ficou mais fácil.
És a razão do meu sorriso mais rasgado e o pior é que tu sabes tão bem disso quanto eu.
Um eterno obrigado!  

segunda-feira

Em sentido e sem sentido

Pensava eu que não fazia sentido as pessoas que diziam que sentiam a maior dor de todas, até me aperceber que o meu mundo tinha um pilar, um motivo, uma razão para me fazer continuar a acreditar nisso. Iludia-me dia-a-dia com o facto de que isso nunca iria acontecer e mesmo que acontecesse, conseguiria superar tudo sozinho e de que nunca iria precisar de ninguém. E foi exactamente aí que me enganei...
Hoje sei o que é sentir o céu a cair, o mundo a ser totalmente destruído e o universo a explodir num só segundo. E sabes? Doeu mais do que alguma vez algo doeu, mais do que fracturar qualquer membro, mas do que um "não falo mais contigo". Foi uma dor diferente. E tudo mudou!
Mudou porque não te tenho. Já não tenho o calor do teu abraço, a ternura da tua voz, o toque suave que tinhas, o mau feitio que me dava mais e mais vontade de estar a teu lado porque me desafiavas a cada segundo e me ensinavas a lutar pelos meus ideais com a garra de uma super mulher, tal como tu.
Confesso que te julgava eterna. Julgava que iria ter o prazer de viver contigo até encontrar o meu caminho, julguei tanto e acabei desiludido. Não contigo, mas com a vida, a vida que acabou a partir do momento em que desapareceste e em que me cá deixaste, desamparado, as voltas neste compasso sem grafite para desenhar os meus caminhos, ou sem um "estou aqui" como tantas vezes me dizias.
Pior que te perder, foi mesmo o facto de te ver ir aos poucos e sentir-me sempre frustrado por não te conseguir ajudar,não ficaste doente sozinha, o meu coração adoeceu contigo e nunca mais se vai curar, há sequelas e sequelas, mas a tua, ficará para vida, uma cicatriz no meu córtex frontal. Mais frustrante é pensar em tudo o que dissemos um ao outro, que não íamos desistir, que íamos enfrentar aquelas horas de quimio e lutar com tudo o que tivéssemos.
Desculpa, desculpa ter falhado, desculpa ter ido visitar-te naquele último dia, em que já não falavas, quase não abrias os olhos, mas fizeste um esforço, para mim, lembro-me tão bem, fui a única pessoa para quem os abriste no teu último dia. Não dependia da minha vontade, não dependia da minha força ou do meu modo de enfrentar tudo. Não dependia de ninguém mas mesmo assim, eu tentei, eu juro-te, tentei com tudo o que tinha e tudo o que não tinha e o que eu chorei naquele corrimão após ter saído da tua sala, rodeado de frases vazias mas cheias de intenções, "ela vai ficar bem", "está tudo bem" ou "tu és forte", eu sabia que nada disso era verdade, nem eu era forte, nem tu ias ficar bem nem tudo estava bem, nem hoje mesmo está.
E agora... agora dói e vai continuar a doer, eu choro e vou continuar a chorar mas de uma maneira diferente e simples, mudo e quieto. é assim a minha dor.
Porque não preciso de chorar em frente a ninguém ou até mesmo falar de ti para saberes que sinto a tua falta e que sem ti a vida perdeu a cor ou o sentido que tu lhe davas. E abdicaria de tudo só para te poder dar mais um abraço ou ouvir um grito teu a mandar-me tomar banho ou para a cama depois do jantar. 
O amor, esse é inquestionável e está bem patente aqui dentro, longe dos olhares curiosos ou das perguntas carregadas de farpas de quem não tem vida própria, é eterno e na minha cabeça tu fazias todo um sentido e esse sentido e continuar esta caminhada para te mostrar que continuas viva em mim. Eu a
mo-te mais do que isto, mas as vezes as palavras são difíceis de proferir, complicadas de ingerir e intrigáveis de digerir, porque não estás aqui.